Brésil : Expérience de Piauí
Après une longue période d’attente, mon visa a enfin été approuvé. Ce temps d’attente m’a offert l’opportunité de vivre aux côtés des sœurs de la Communauté Reine de la Paix (Rainha da Paz), une expérience pour laquelle je nourris une profonde gratitude.
Durant cette période d’attente, j’ai également eu la chance de participer au projet de bénévolat développé avec les élèves de troisième (9º ano) et du lycée du Collège Reine de la Paix. Ce projet a pour objectif de préparer les étudiants à une expérience de vie commune, d’écoute et de solidarité auprès des habitants du Piauí, en partenariat avec la Caritas Régionale du Piauí.
Cette initiative vise à offrir des citernes aux familles qui ne disposent pas de moyens pour collecter et stocker l’eau de pluie, garantissant ainsi l’accès à l’eau pendant les périodes de sécheresse et tout au long de l’année dans la région semi-aride de l’État.
Les élèves suivent une année de préparation avant la mission. Durant cette période, ils participent à des rencontres hebdomadaires et vivent des expériences concrètes de service en rendant visite à des personnes en situation de vulnérabilité, telles que les personnes âgées accueillies à la Maison Siméon (Casa Simeão) et les personnes sans-abri accompagnées par le Recifram. Entre les mois de mars et juin, j’ai également eu la grâce de participer à ces moments de partage et d’apprentissage.
Du 15 au 23 juin, nous nous sommes rendus dans la communauté de Chapada da Colônia, un village de la municipalité de Capitão Gervásio Oliveira. Nous avons été accueillis au sein des foyers, partageant le quotidien, la culture et la foi des familles. Durant cette mission, quatre familles ont reçu des citernes. Ce soutien représente bien plus qu’une simple construction physique : il est synonyme de dignité, d’espoir et de meilleures conditions de vie.
Pourtant, une réalité m’a profondément marquée. J’ai constaté que beaucoup de familles bénéficiant de ces citernes ne possèdent toujours pas de toilettes chez elles et continuent d’utiliser la nature pour leurs besoins fondamentaux. Cette situation a suscité en moi une profonde inquiétude : comment garantir l’accès à l’eau sans que ces familles n’aient accès à l’assainissement de base ?
Je pense que cette réalité ne s’explique pas uniquement par des facteurs culturels. Dans certaines maisons, un espace était déjà réservé pour la construction des toilettes, bien qu’encore inachevé, révélant ainsi le désir des familles d’améliorer leurs conditions de vie. Cela nous invite à réfléchir à l’importance de politiques publiques qui garantissent également l’accès à l’assainissement de base, un droit essentiel pour la promotion de la santé et de la dignité humaine.
Je considère ce projet comme une initiative indispensable qui ne devrait jamais cesser d’exister. En même temps, je pense qu’il pourrait être enrichi par des actions d’éducation à la santé, à travers des ateliers sur l’hygiène, la prévention des maladies et les soins de base, renforçant ainsi davantage la qualité de vie des familles accompagnées.
Ce furent des jours d’apprentissage intense et de profonde gratitude. Nous avons été accueillis avec une immense générosité par les familles, qui ont préparé des plats typiques et partagé avec nous les richesses de leur culture et de leur foi. Nous avons eu la joie de participer à la récitation du chapelet, à la danse de São Gonçalo, à des représentations théâtrales et aux traditionnelles quadrilhas (danses folkloriques de la Saint-Jean), autant de manifestations qui expriment la beauté et la force de l’identité de ce peuple.
Je repars de cette expérience le cœur rempli de gratitude. J’emporte avec moi le témoignage de simplicité, de foi, d’espérance et de partage des familles qui nous ont reçus. Cette mission restera à jamais gravée dans ma vie et a renforcé en moi la certitude que la rencontre avec les plus vulnérables transforme profondément quiconque accepte de servir.
Avec toute mon affection,
Ana Paula
Texte orignal en brésilien :
EXPERIÊNCIA NO PIAUÍ
Queridas irmãs,
Depois de um longo tempo de espera, meu visto foi aprovado. Esse período me proporcionou a oportunidade de conviver com as irmãs da Comunidade Rainha da Paz, experiência pela qual sou profundamente grata.
Durante esse tempo de espera, também fui agraciada com a oportunidade de participar do projeto de voluntariado desenvolvido com os alunos do 9 ano e do Ensino Médio do Colégio Rainha da Paz. O projeto tem como objetivo preparar os estudantes para uma experiência de convivência, escuta e solidariedade junto ao povo do Piauí, em parceria com a Cáritas Regional do Piauí.
A iniciativa busca oferecer cisternas a famílias que não dispõem de meios para captar e armazenar água da chuva, garantindo o acesso à água durante os períodos de seca e também ao longo do ano na região semiárida do estado.
Os alunos passam por um ano de preparação antes da missão. Nesse período, realizam encontros semanais e vivenciam experiências concretas de serviço, visitando pessoas em situação de vulnerabilidade, como os idosos acolhidos na Casa Simeão e as pessoas em situação de rua atendidas pelo Recifram. Entre os meses de março e junho, também tive a graça de participar desses momentos de convivência e aprendizado.
De 15 a 23 de junho, estivemos na comunidade Chapada da Colônia, um povoado do município de Capitão Gervásio Oliveira. Fomos acolhidos nas casas das famílias, compartilhando sua rotina, sua cultura e sua fé. Durante essa missão, quatro famílias receberam cisternas, um benefício que representa muito mais do que uma obra física : significa dignidade, esperança e melhores condições de vida.
Entretanto, uma realidade me marcou profundamente. Percebi que muitas das famílias beneficiadas com as cisternas ainda não possuem banheiro em suas casas e continuam utilizando o mato para realizar suas necessidades básicas. Essa situação despertou em mim uma profunda inquietação : como garantir o acesso à água sem que essas famílias tenham acesso ao saneamento básico ?
Acredito que essa realidade não se explica apenas por questões culturais. Em algumas casas já havia um espaço reservado para a construção do banheiro, ainda inacabado, revelando o desejo das famílias de melhorar suas condições de vida. Isso nos leva a refletir sobre a importância de políticas públicas que assegurem também o acesso ao saneamento básico, um direito essencial para a promoção da saúde e da dignidade humana.
Vejo esse projeto como uma iniciativa indispensável, que jamais deveria deixar de existir. Ao mesmo tempo, acredito que ele poderia ser ampliado com ações de educação em saúde, promovendo oficinas sobre higiene, prevenção de doenças e cuidados básicos, fortalecendo ainda mais a qualidade de vida das famílias atendidas.
Foram dias de intensa aprendizagem e de profunda gratidão. Fomos acolhidos com enorme generosidade pelas famílias, que prepararam comidas típicas e compartilharam conosco as riquezas de sua cultura e religiosidade. Tivemos a alegria de participar da reza do terço, da roda de São Gonçalo, de apresentações teatrais e das tradicionais quadrilhas, manifestações que expressam a beleza e a força da identidade daquele povo.
Retorno dessa experiência com o coração cheio de gratidão. Levo comigo o testemunho da simplicidade, da fé, da esperança e da capacidade de partilha das famílias que nos acolheram. Essa missão permanecerá para sempre marcada em minha vida e reforçou em mim a certeza de que o encontro com os mais vulneráveis transforma profundamente quem se dispõe a servir.
Com carinho,
Ana Paula